Sugestões para a reta final da campanha presidencial

Havia pensado em “Pequeno Manual de Guerrilha Política”, porém achei o título um tanto quanto pedante. E que correria o risco de que sugerissem que eu fosse morar em Cuba


A maior deficiência da campanha à reeleição da presidenta Dilma Rousseff está na escolha do formato e na propagação do seu discurso.  Apesar de seu governo ter apresentado avanços em diversas áreas, de o país ter aumentado a sua influência no cenário internacional, de vivenciarmos hoje, mesmo com a crise econômica mundial, índices com os quais podemos afirmar que exista pleno emprego, tais conquistas não foram suficientes para um sufrágio convincente nas urnas. É óbvio que a campanha maciça de omissão de resultados importantes, o afinco em dilapidar a imagem do governo, aliada à superlativização de factoides que minassem a sua imagem (orquestrados pelos setores conservadores e corroborados até mesmo por setores da esquerda) contribuiu de forma determinante para a visão distorcida que boa parte da população hoje detém do que foi vivenciado nos últimos anos.
A corrida eleitoral começou e (como já outras tantas vezes ocorreu em nossa história) a coordenação de campanha e o eleitor de Dilma subestimaram a força e as intenções dos setores reacionários da sociedade. Durante todo o primeiro turno davam como certa a reeleição e até mesmo uma vitória em 1º turno foi amplamente cogitada (eu fui um dos que acreditaram). Como hoje vemos tais prognósticos não se confirmaram. A realidade hoje é outra: estamos na iminência de que um governo conservador, neoliberal e defensor dos interesses escusos do capital internacional venha a vencer a eleição daqui a poucos dias derrubando por terra os bons resultados obtidos em mais de uma década.
O que ficou claro com o resultado do último dia cinco é que os partidos de direita robusteceram.  Os grandes meios de comunicação já não escondem qual partido tomou na disputa. As alianças para o 2º turno, quase quem em sua totalidade, beneficiaram a campanha do peessedebista. Em grande parte com a ajuda da própria campanha do PT e sua base aliada, que não soube mensurar qual adversário seria a melhor opção a ser enfrentada, Aécio ressurgiu com tal força que há pouco sequer poderia ser cogitada até mesmo pelos maiores entusiastas de sua campanha. Não será fácil derrotá-lo.
Um grande esforço de memória, a utilização intensa de propaganda que enfatize os reflexos diretos das políticas do governo na vida do cidadão comum e, sobretudo, a simplificação e objetivação do discurso serão elementares para que Dilma Rousseff governe o país pelos próximos quatro anos.
Primeiro ponto: deixar claro para a população a quem servem os grandes meios de comunicação. Isso deve ser feito ao vivo, já na apresentação dos debates. Mostrar que independente do que seja ali dito, caberá aos editores e aos donos dos meios (e aqueles que estes representam) a mensagem que será massificada nos dias subsequentes; expor a inequidade de espaço e tratamento dispensados a cada candidato na programação veiculada. Explicar o porquê de tais meios estarem tão temerosos com um possível novo êxito. Um exercício de desmistificação.
Próximo passo: sair da defensiva. “Refrescar” a memória do eleitor (sobretudo os mais pobres) quanto o que foram os anos sob o governo do PSDB: arroxo salarial, salário mínimo abaixo dos US$ 100,00, entrega de um patrimônio incalculável em setores estratégicos (enfatizar a Vale do Rio Doce e o conteúdo de suas reservas na exemplificação) ao capital estrangeiro, mendicância ao FMI, a elevação astronômica do endividamento público, ressaltar a miséria em que vivia boa parte da população (o soro caseiro era o paliativo apresentado no combate à desnutrição infantil e as empregadas doméstica sem direito algum se contentavam com sobras de comida e roupa usada para complementar o seu parco rendimento, etc.) Tem que “tocar na ferida” porque, ao contrário do que muitos pensam, muitos dos eleitores de eleitores de Aécio são pobres grandemente beneficiados pelas políticas sociais e que, sob influência da mídia golpista (ou porque agora erroneamente sentem-se classe média e comportam-se como tal) “viraram casaca” e desavisadamente “cospem” prato que ainda comem.
Corrupção: chega de falar que os atuais escândalos hoje vêm à tona porque já não existe um “engavetador-geral da república”, grande parte do eleitorado sequer entende o trocadilho. É hora de por à mesa o que foi a “Privataria Tucana”, o “Trensalão”, o “Mensalão Mineiro”, a “Pasta Rosa”, a compra de votos para a reeleição de FHC, entre outros. É hora de “dar nome aos bois”. Assuma os erros sem deixar dúvidas de que os hoje acusadores têm muito mais a explicar. Chega de carregar a “paternidade” de algo que está vinculado às entranhas do país desde seu descobrimento. Uma catarse política necessária.
A simplificação do discurso e da sua propagação: dizer que gerou 5 milhões de emprego em nada refresca (quem está desempregado enxerga a afirmação como bravata e os que estão empregados julgam sê-lo por próprio mérito). O questionamento deve ser franco de imediata reflexão, imagético: a sua vida está melhor hoje ou há dez anos (isso demonstra a importância e a eficácia do processo implementado)? Você come mais carne hoje ou na era FHC? Era sempre que se podia fazer churrasco? Quando foi que seu filho começou a beber leite de caixinha, danone (lembre-se que o maior número de pessoas deve ser atingida), bolacha recheada, etc..?  “Se você é muito novo para se lembrar, pergunte para seu pai”. Quantas pessoas da sua família ou conhecidos tinham carro ou moto? Você tinha? Agora tem? Quantas pessoas que você conhece fez faculdade? Você fez? E seu filho? Quem você conhecia que podia viajar de avião? Você conhece alguém hoje que já viajou? No seu tempo a escola distribua livros, lápis, caderno? Hoje é mais fácil compra uma geladeira, um fogão, uma TV? Você que é empregada doméstica, trabalhador da construção civil, do comércio, da indústria, a sua vida melhorou? Os exemplos podem ser outros tantos mais. Reafirme a identidade com o proletariado. Fale em primeira pessoa, olhos nos olhos do eleitor.
Para que essas mensagens repercutam não será fácil. As edições que irão ao ar nos telejornais, que estamparão impressos e plataformas digitais facilmente as converterão em bravatas vazias de conteúdo, quando não puderem omiti-las. Faça uso intensivo dos modernos meios de comunicação, mas não se apoie somente a eles. Transcreva os questionamentos que instigarão a criticidade do cidadão em panfletos, isso mesmo, a velha e eficiente panfletagem tão utilizada pela esquerda outrora (caso aja espaço na lei eleitoral, inunde os grandes centros com outdoors contendo apenas tais perguntas, sem identificação partidária, deixe responderem por si).  Distribua-os nos bairros mais populosos, nas portas das fábricas, às pessoas a caminho do trabalho ou escola.  A verdade virá à tona. Será essa uma grande transgressão à ordem comunicacional estabelecida.
Essa é a opinião de alguém que ainda acredita que seja possível sairmos vencedores dessa batalha. O tempo urge e o inimigo não dorme!
Não concordo com tudo no atual governo, mas penso que essa seja a única opção para aqueles que lutam por um país mais justo. Caso sejamos vencedores, será a hora de intensificar as mudanças, corrigir os erros e fazer jus ao voto de confiança dos que lutam para que todos os brasileiros, sem exceção, tenham a cada dia uma vida melhor. Espero, sinceramente, de alguma forma ter colaborado.

Fernando Grisolia

Comunicador social, jornalista e bancário.

Comentários

  1. Muito, muito bom, Fernandão!!!
    Coeso, honesto, brilhante.
    (permite compartilhar??)

    E "vamo pra guerra!"

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