É só o começo

          Acabou. Depois de semanas de árdua peleja o 2º turno das eleições presidenciais teve ontem o seu desfecho, e este, não poderia ter sido melhor: vitória de Dilma Rousseff, a minha escolhida. Porém, para chegar a esse resultado, muito trabalho, discussões, desentendimentos, concordâncias, persuasão, convencimento, argumentação, nervosismo, paixão. Um sem número de episódios, que em seu conjunto, trouxeram-nos ao dia de hoje. Sinto-me determinante nessa conquista. Exerci o meu próprio protagonismo histórico e lutei com afinco para que o projeto por mim elegido fosse o vitorioso. Consegui.
          O ativismo político se deu em várias frentes. Assim deve ter sido para outros tantos que como eu, buscam uma existência, uma sociedade, um país, um todo mais justo e humano. Não que não existam muitas ressalvas quanto ao atual governo. Muito precisa e deve ser melhorado. No entanto, na iminência de um retrocesso histórico, tive de municiar-me do arsenal do qual disponho e sair para o campo de batalha. Incorporei a ideia da vitória e combati todo pensamento retrógrado e esdrúxulo que encontrei. Não foram poucos. Infelizmente, os meus opositores, em sua quase que totalidade, não se utilizaram de argumentos válidos e relevantes. Prefiro acreditar que por ignorância e despreparo, os hoje vencidos destilaram o mais sórdido veneno por onde quer que passaram. Analogicamente, senti-me em uma guerra em que o inimigo preferiu, ao invés do confronto leal e direto, fazer uso de armas químicas e bombardeios sistemáticos com aeronaves não tripuladas. Daí, era vencer ou morrer e, como a segunda opção por mim foi descartada, combati de forma intensa e por muitas vezes raivosa. 
          Não se vence uma guerra com amor. Ela é o modelo melhor acabado da violência. Fui então virulento e até mesmo cruel. Não tive pena de amigos ou parentes que se encontravam no lado contrário. Revestido das virtudes e crenças que tenho na humanidade avancei impiedosamente sobre a discriminação, a xenofobia, o ódio, a homofobia. Enfim, sobre toda a canalhice escolhida pelos derrotados. 
          Semeei onde pude a informação, os números, as constatações do porquê de minha escolha. Defendi o meu ponto de vista e procurei aniquilar tudo o que julguei mentira e contradição. Dizimei justificativas pífias, ora com altivez, ora com escracho. Feri, fui ferido. O indispensável é que logrei êxito e hoje posso regozijar-me de minha decisão.
          Nada foi fácil: nas redes sociais, sites noticiosos, blogs e afins, manifestei de forma aberta a minha opinião. Até o último momento (ontem dia da eleição), parei pessoas nas ruas e questionei-as em quem iriam votar: a senhora come melhor hoje ou há dez anos atrás? Quantas pessoas você conhece que hoje fazem faculdade? Há pouco tempo isso não existia. Quantas pessoas da sua família hoje têm carro? A molecada hoje toma leite de caixinha, iogurte, salgadinho, refrigerante todo dia. No meu tempo não era assim. Lembra? Hoje quem quiser ter empregada doméstica tem de registrar em carteira, pagar seus direitos, um salário. Antes, ganhavam uma miséria e alegravam-se em aceitar roupas usadas e sobras do final de semana para alimentar e vestir seus filhos. Concorda? Pobre viajando de avião! Quando isso era possível... O mais gratificante é que na grande maioria das vezes as pessoas assentiam com a cabeça, concordando com o que tinham ouvido. Então já sabe, não "mosca" (da gíria moscar), não vota em tucano (sic). Esses caras querem prejudicar os trabalhadores, ver o brasil novamente dependente do FMI. Há quanto tempo a senhora não escuta ou lê isso no jornal? Lembra do tempo do Sarney? Da carne preta congelada, da fila do feijão, da fila do gás? 
          Pois é, o Brasil evoluiu muito. E tem muito pra melhorar ainda. Essa molecada não sabe a dificuldade que era. Eu trabalhei de servente de pedreiro pra ganhar R$10,00 o dia. Eu senti o que era o desemprego. Furei poço. Fui garçom, Dormi em uma caixa de geladeira debaixo de uma marquise e tive de pedir comida em Paranaguá. O país melhorou sim! Queiram vocês ou não. Votei com um cartaz colado nas costas "Sou Dilma 13 (estrela) por mais direitos aos pobres". Fui abordado por um policial e rechacei-o olhando-o nos olhos: "eu conheço a lei. Eu estudo a lei, sou jornalista exerço democraticamente o meu direito. Desde que em silêncio, posso manifestar a minha opinião!". A ele só restou concordar.
          Entrei no colégio onde eu e meus pais votamos com minha filha no colo e os dedos em riste sinalizando o número treze. O próprio chefe da zona eleitoral concordou: dessa maneira, não tem problema nenhum. Ao entrar na sala da septuagésima sétima seção da tricentésima zona eleitoral apenas um mesário, o Edson, com o qual estudei nesse mesmo local. Segredei-lhe: vamos ganhar cara. Sou Dilma 13! E ele em resposta: que bom que você pensa assim.
          Votei convicto. Exerci a minha cidadania e voltei para casa à espera da apuração.
          Gritos. Pulos. Aplausos. Abraço na minha mãe que também se mostrou uma guerreira linha de frente nesse inesquecível embate.
          Agora é hora de cobrar. É só o começo.


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