Disfunção de Caráter Pós-Traumática Crônica
Difícil compreender o
comportamento que faz com que oprimidos, sejam estes indivíduos, grupos ou
povos inteiros, absorvam as torpezas de seus algozes assim que de suas
costas o jugo lhes é tirado. Exemplos são muitos. Estão por todo o noticiário,
redes sociais e até mesmo em recentes fenômenos sociais urbanos: massacre em
Gaza, tacanhos que se assumem de direita, policiais flagrados em execução no
Rio, periferia ostentação.
A intensidade do fenômeno parece
proporcional ao grau da violência sofrida. Estima-se que 1,1 milhão de Judeus
tenham sido exterminados pelo regime nazista. Sofreram com perseguições,
expropriações, escravidão, extermínio em massa. No Brasil, a grande maioria dos que vociferam contra
políticas de inclusão e afirmam que a polícia tem de “descer o cacete” sobre aqueles
que reivindicam direitos e melhorias para a população como um todo, até pouco
tempo não tinham sequer os próprios direitos básicos à sobrevivência
assegurados. Policiais assassinos negros, enquanto crianças de origem humilde
sabiam que eram visados apenas por serem de onde eram. O miserável abaixo da linha
da pobreza sonhava com um mundo mais igual.
Foram quase dizimados. Foram
retirantes há algumas gerações, andaram de ônibus e comeram de marmita. Foram
pivetes. Existiram miseráveis.
Pois bem, mas eis que ao sair do
cativeiro, ao vislumbrar uma melhor condição, esse antes oprimido passa a
sentir-se diferente, um élan de superioridade infla-lhe os pulmões e enleva-lhe
o cérebro. Agora já não está ele “na pior”. Existem outros em condição inferior
à sua e, inexplicavelmente, isso o satisfaz. Quanto mais latente for a
dissimilitude entre este e aquele que agora ocupa o que há pouco fora o seu
lugar, tanto melhor.
Por isso, justo é massacrar uma população de civis, mulheres e
crianças encurralando-os para que não possam fugir, achincalhar e propor o
linchamento dos que pedem por moradia, transporte público ou propõem medidas
que visem o arrefecimento da concentração do capital. Matar por prazer meninos
pretos pobres. Mostrar ao outro que é superior ao jactar-se com tudo o que o
dinheiro possa comprar.
"Agora sou superior, sou
burguês, sou branco da classe média".
Súcia de néscios. Sofrem de uma
comum disfunção de caráter pós-traumática crônica.
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